Memória Metálica

Continuação de Conto de um Futuro IdealCapítulo II

Capítulos anteriores: PrólogoIntrodução

“Se você acha que o conhecimento custa caro, experimente optar pela ignorância.” Abraham Lincoln

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Os meandros da evolução são infinitos e inquietantemente aleatórios. Ou a sensação da aparente aleatoriedade nada mais é que a ignorância das leis que regem o universo (!?). Haveria um mecanismo capaz de explicar realmente quem somos, de onde viemos e para onde vamos?

Parece que esta resposta estaria um pouco mais próxima. Após 40 mil anos da parceria firmada com os Elhirem, não só passamos a explorar as galáxias na velocidade da luz e nos abastecermos diretamente do hidrogênio das estrelas… garimpamos materiais exóticos em cada quadrante dos aglomerados vizinhos, sendo que um deles nos trouxe uma revelação espontânea que há muito nossa civilização esperava.

Os Elhirem já dominavam intuitivamente esse conhecimento, mas os humanos arrogantes que nunca deixamos de ser, precisávamos de uma prova científica cabal. Falo da nossa existência anterior ao corpo material e após a morte dele. Não adiantaram as evidências esmagadoras apresentadas no decorrer dos milênios (Rivail e Crookes que o digam); para saciar nossa incredulidade e prepotência precisaríamos de algo mais mastigado em nossas mãos, um recurso incontestável que se apresentasse a todos, individualmente.

Trata-se de um metal, que denominara-se Atmeno, extraído primeiramente em uma pequena lua no aglomerado IV da galáxia de Andrômeda.

Foi um susto geral quando trouxemos as primeiras amostras para Unit. Pasmem, mas o cidadão humano que era exposto alguns minutos a metros de distância de uma pequena partícula desse metal, entrava em um aparente estado vegetativo temporário (mais tarde explicado como uma EQM – Experiência de Quase Morte) e horas depois retomava seu corpo, relembrando fatos que vira “do outro lado” e até mesmo memórias pretéritas de supostas outras existências. Um tipo de emancipação que, a contragosto dos críticos e céticos, gerou um efeito encadeado que se apresentou pouco a pouco a cada ser inteligente do planeta. Os Elhirem certamente se divertiram com esta nossa “saída forçada do casulo”.

Abriu-se a porta de uma dimensão posterior. Múltiplos despertares, um entendimento mais holístico da trajetória de cada um, entre conquistas, dificuldades e responsabilidades. Passado o “susto” descobriram-se ainda potentes utilidades “comerciais” do material. Os mais conectados lembrar-se-ão do início do séc.XXI (antes da Revolução Galáctica) quando já se armazenava centenas de terabytes em nanoprocessadores de dióxido de silício, germânio ou gálio?

Então, essa liga metálica híbrida contendo o Atmeno, mesclada em proporção 3:1:1 com titânio e grafeno seria capaz de armazenar nossas memórias diárias, sem necessidade alguma de computadores, e ainda termos acesso as nossas trajetórias milenares além da matéria. O usuário solicita e através de uma neurocirurgia é inserido um grão de 5nm (tamanho 20 vezes menor que um vírus qualquer) no centro de sua glândula pineal.

Ela capta todas nossas atividades, decisões, de forma complexa e armazena cópias instantaneamente. Nos tornamos mais conectados novamente como seres humanos, pois a “nuvem” de armazenamento é a mesma para todos, e incorruptível. Tem auxiliado muito as pessoas no ambiente de trabalho, nas universidades e no dia a dia do cidadão comum.

Dizem os engenheiros genéticos por aqui que o número atômico do elemento descoberto guarda intrincada relação com uma teoria de Leonardo de Pisa. A tal Sequência Fibonacci encerraria o conjunto das características que definem as configurações biológicas, os arranjos estelares e a constituição de cada elemento químico conhecido. E agora sabemos que era algo ainda maior do que isso…

“Eu, um universo de átomos, um átomo no universo.” Richard Feynman

Intro (Caos)

Continuação de “Conto de um Futuro Ideal”Capítulo I

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É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante.

Friedrich Nietzsche

Prólogo firmado, vamos aos fatos. Se hoje o universo encontra-se em equilíbrio, foi pela determinação e bravura de alguns poucos, que transcenderam sua natureza e pasmem, renunciaram aos seus interesses materiais por um bem maior.

Meados do Séc. XXII. A escassez de água e a miséria assolava a vida de bilhões. A exaustão dos combustíveis derivados do petróleo era iminente, e as alternativas existentes não seriam suficientes para suprir tão alta demanda. A pegada ecológica do planeta já alcançava o equivalente a 10 Terras, e como Malthus estimava, o crescimento exponencial da população em contraposição à produção finita dos recursos levaria a um colapso inevitável.

As guerras prosseguiam em nome de supostas diferenças ideológicas, e na busca desenfreada de um poder ilusório. Quando todo sonho de um mundo melhor estava para desmoronar, a esperança surgiu de onde ninguém esperava…

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Disco de Ouro – Voyager 1

A sonda Voyager 1, lançada pela Nasa em 1977, já havia encerrado sua missão mas um disco contendo os sons da Terra continuava sua jornada rumo ao centro da Via Láctea. O disco, que continha nossas saudações (Paz e felicidade a todos) em mais de 50 idiomas, entre outros sons característicos, levava gravado em sua capa a localização aproximada de nosso planeta. Nunca esquecerei do dia 7 de setembro de 2187, quando o primeiro contato com uma civilização exótica foi realizado, de maneira tão magistral que paralisou a todos em um misto de medo e esperança do desconhecido.

Eram os Elhirem. Uma civilização infinitamente avançada que vivia próxima à região central de nossa galáxia. Seus corpos tinham a forma e a aparência similar à nossa… mas eram sutis, etéreos. Sua chegada causou uma comoção geral, uma eletricidade que inspirava a todos.

Não houve confronto algum. Os Elhirem eram pacíficos e extremamente inteligentes. Dominaram todos nossos idiomas somente no contato com o disco dourado. Sua presença causou um estranho bem estar, extinguindo o clima de violência e o ego ideológico de todos os povos.

Logo que chegaram, solicitaram uma reunião com os líderes do planeta. Quando encontraram os representantes da ONU e seus assessores, surgiu um primeiro estranhamento:

— Nós temos a imagem de seus líderes. São expoentes do intelecto e da moral que terão aptidão para compreender e replicar nossa tecnologia. Em tempos remotos vocês os conheceram como inventores, filósofos e cientistas de sucesso… hoje eles se encontram novamente entre vocês, com outras aparências, no aguardo de sua ativação para darem continuidade em seu propósito de alavancar o progresso da Terra.

Em questão de horas estas pessoas foram encontradas. Cidadãos comuns que viviam em sua atividades rotineiras: engenheiros, astrônomos, físicos, artistas, pintores, escritores… uma cúpula de quase 5 mil pessoas espalhadas em centenas de países. Ideia que se diluiria com a chegada dos Elhirem. As fronteiras se dissiparam e deram origem a Unit, um aglomerado que seria organizado por estes predestinados em busca da equidade, de condições e aptidões.

Os Elhirem captavam e transformavam energia com impacto 0 ao meio ambiente. Além disso nos ensinaram à extrair recursos e produzir de forma sustentável¹.  Pouco a pouco todos os segmentos foram se transformando, nas respectivas prioridades: educação, saúde, meio ambiente, segurança, saúde, economia e política.

Iniciava-se o caminho de um futuro mais justo, previsto por Charles Chaplin em 1940: um mundo de razão, onde a ciência e o progresso levariam à felicidade de todos…

“Duas coisas enchem o ânimo de crescente admiração e respeito, veneração sempre renovada quanto com mais frequência e aplicação delas se ocupa a reflexão: por sobre mim o céu estrelado; em mim a lei moral. Immanuel Kant

¹Assunto será pormenorizado nos Capítulos 2 e 3.

The Battle of Hales

Há muito tempo que o meu axioma é de que as pequenas coisas são infinitamente as mais importantes.

Sir Arthur Conan Doyle

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21 horas. Sinto uma certa angústia bater, a rotina perde o sentido. Mecanicidade me perturba, quero novos desafios…algo edificante, alguém. Os ponteiros avançam celeremente, o tempo é general da entropia e não perdoa procrastinadores.

Avanço pela região central londrina sem saber ao certo meu destino. Uma movimentação me chama atenção. É o Hales, grande pub da cidade, recheado de boêmios entupidos de grana e uísque. Belas donzelas se arrastando penosamente a lhes angariar atenção.

Todas cadeiras ocupadas, me encosto no balcão. Uma caneca de guiness salpicada com uma dose de bailey. Tento me entreter com uma banda sem sal e desafinada. Qualquer coisa para me desviar a atenção, por favor!

Na outra ponta do balcão, uma jovem me fita com seus olhos arregalados. Parece entediada como eu. Quase meia noite e o bar lotado, missão impossível me locomover até ela. Mando um barman entregar uma cortesia, um espumante acompanhado de um bilhete:

— Na tentativa de adoçar o instante, com prazer lhe envio este espumante. Sherlock

Ao ler ela sorri disfarçadamente. Não sei se de deboche ou agucei sua curiosidade. Passam alguns minutos e recebo uma resposta:

— Que rima mais sem graça! Beba mais cerveja que a vergonha passa…

Ah, uma batalha de rimas? Ponto alto da noite. Vou aderir ao certame. Novo envio e o barman já me encara irritado, mas entrega mesmo assim.

— Toda graça parece estar concentrada em um só lugar, seu semblante e o seu olhar…

Novo sorriso, agora aparenta certa sapiência e desenvoltura.

— Agora estimas minha aparência, em detrimento de minha essência?

A cada bilhete mais interesse por esta mulher misteriosa.

— Uma bela flor, de inestimável vigor, só pode conter uma seiva de inigualável sabor.

O tempo passara e eu nem vi, hipnotizava-me aquela personalidade excêntrica, que contrastava com o ambiente monótono. Recebo mais uma resposta ácida:

—  Conheço Lord Byron de trás para frente, esqueça o corpo e foque na mente!

Enfim me aproximo para me apresentar. Deve ter sido a palavra mente entoada com tanto mistério, aguçou ainda mais meu interesse. Quando chego ao outro lado, ela desapareceu. Deixou um último recado:

— Da próxima vez não seja tão entediante. E me pague uma cerveja de trigo, não espumante! 

E foi assim que conheci você… Irene Adler.

Backpacker

Backpacker’s Diary

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Backpacker‘s Diary, October 1st, 1908

Preparei meu Bourbon, liguei o gramofone e recostei-me na poltrona. John Dowland é meu artista favorito desde a adolescência. Sua obra-prima Sick Tune me faz recordar a leveza e a irresponsabilidade da juventude.

Estamos em meados de 1908 e o inverno tem sido rigoroso. A lenha se esfacela em brasas, estalos que se integram à angústia de John e suas cordas mágicas.

O primeiro gole desliza suavemente enquanto reflito e recordo sensações de um passado não tão distante. Vamos ao imbróglio.

Monitoro um núcleo científico da Universidade de Sheffield onde prosseguimos com diversos planos de Tesla, entre eles um dispositivo eletromagnético chamado transmissor de ampliação. A ideia é operá-la como um centro de transmissão de energia sem cabos conectores, radiodifusão e telefonia.

O custo para o governo é de 25000 libras esterlinas ao mês, o que cobre meus honorários e de minha assistente Louise, além dos materiais e equipamentos. Estamos relativamente bem, mas temos concorrentes ferrenhos em relação aos métodos dele, no que vivem a criar situações embaraçosas em nossos experimentos.

Na Science Magazine vivem a publicar artigos difamando a seriedade de nosso grupo acadêmico… o que dizem ser uma perda de custos que poderiam ser revertidos para outros fins. Que as invenções relacionadas à eletricidade e eletromagnetismo não passam de uma farsa e que não tem futuro. Retórica da oposição, artigos certamente patrocinados pela Mundial Electric.

Os patrocinadores nos pressionaram por resultados, que viessem de encontro a seus interesses. Não estavam nem aí para a humildade de Tesla e seus planos transformadores. Eu, que nunca fiquei longe de situações delicadas, tive uma ideia aparentemente inocente.

Isso ocorreu há dois anos. Se hoje escrevo é para que este segredo ecoe através dos tempos. Com profunda boa intenção em dar continuidade ao projeto, solicitei auxílio de de Ethan Morrison, um concorrente direto de Tesla. Era um amigo de infância, e por isso ainda acreditava em sua generosidade. Ele me propôs um trabalho, no que aceitei prontamente, para que pudesse nos auxiliar, livrando-nos da pressão do governo.

Me reuni a uma equipe de supostos engenheiros, que me levava a um almoxarifado, onde estariam as peças do problema a ser resolvido. Um lugar ermo, após uma longa viagem…uma marina em Wales. Malas repletas de supostos equipamentos, um dos técnicos, mau encarado, me questionou:

– Sabe manusear um rifle de longa precisão? É preciso corrigir a angulação conforme os ventos.

— O que??? Um desespero tomou conta de meu corpo, já franzino, ao notar o terreno em que estava adentrando.

– Você terá que acertar um alvo a 1 milha de distância, palavras do chefe. Parece que tem um espertinho a cientista querendo estragar os planos da Mundial.

Permaneci estático, meus pensamentos já não respondiam e meu corpo caminhava a passos largos de uma languidez total. Era de Tesla que eles falavam, meu patrão, quem mais poderia ser?

Prosseguimos viagem, o tempo não passava. Eu precisava de um plano pra resolver tudo, mas não tinha. De repente, retornamos a Londres, onde Tesla apresentava uma de suas invenções em praça pública. Eu já conhecia o aparato, conhecido como aparelho de radiografia, pois participei da equipe. Na cobertura de um hotel, me entregaram a arma, e disseram que eu tinha 3 minutos para fazê-lo. Me ofereceram até mesmo um emprego na Mundial, com um salário altíssimo. Era isto ou a morte.

Os fenômenos que ocorreram a seguir, são de difícil explicação, mas desejo que quem encontrar este diário, divulgue este estranho acontecimento aos estudiosos de sua época. Estava eu mirando aquela poderosa arma, tremendo e transpirando os horrores de minha decisão ingênua, quando de alguma forma, tudo parou. Sim, parou! O tempo, as pessoas, estava tudo paralisado. Parecia que somente eu tinha consciência daquele momento.

Um estranho apareceu, vestido como um ninja oriental, dizia se chamar Kalki… e que estava contribuindo para alguns ajustes na linha do tempo. Ele também conhecia Tesla no futuro, mas que não havia tempo para muitas explicações, já que ele podia pausar o cenário por no máximo 3 minutos, para não afrontar supostas leis regentes. Disse que era minha segunda chance, e que as coisas se acertariam. Sumiu como um relâmpago, e como havia dito, o xerife de Londres apareceu em seguida com a cavalaria, ofuscando os planos de Morrison. Todos foram presos e eu, após depoimento, peguei alguns meses de trabalho comunitário graças à minha infeliz escolha.

Nunca contei a ninguém, nem mesmo a Tesla. Deixei as coisas fluírem como estavam. Mas quem era este estranho visitante com habilidades mágicas, diria até divinas? Passei alguns meses bebendo descontroladamente e pensando em trazer a público está odisseia. Eu seria taxado de louco…diriam que tudo aquilo não passou de um sonho lúcido, já que trabalhava noites a fio com eletromagnetismo e os habitantes no geral alimentavam uma crença bizarra de que aquilo gerava efeitos adversos em nossos cérebros.

Não sei mais no que acreditar, mas se você se deparar com este diário no futuro, que compreenda minhas decisões, e faça bom uso desta informação.

Talvez vocês entendam um pouco mais do que eu… há coisas neste universo que somos convidados a parar de pensar, ou seguimos rumo a uma espiral de conjecturas infrutíferas. Só espero que este futuro chegue com progresso e felicidade a todos.

Backpacker 

Conto de um Futuro Ideal

Agradecimentos

Aos prezados leitores, que certamente nos acompanharão nesta viagem prazerosa e talvez, com alguns percalços.

Ao estimado Kalki, pela infinita sabedoria e informações valiosas do futuro da humanidade.

Ao pesquisador sempre bem humorado Ford Prefect, pelas dicas de como nos comportarmos em uma viagem intergaláctica, e absolutamente NUNCA deixar-nos esquecer a bagagem, incluída a essencial toalha.

O Autor

ShorelineoftheUniverse

 

PRÓLOGO

 

Estamos no primeiro ciclo da união intergaláctica. Como vislumbrado por Asimov, a humanidade já povoa dezenas de milhares de planetas, vivendo em trânsito intenso da Via Láctea à Andrômeda, e na vizinhança cósmica.

Para que você entenda de forma precisa o desenrolar desta história, caro leitor, farei uso deste prólogo para uma síntese esclarecedora. Cada ciclo possuirá por volta de 250.000 anos (na forma como se considera o tempo na Terra). A propósito, estamos no fim do ano 47.143 do Ciclo I, no milênio que usualmente tratamos como 47KC1.

Iniciamos a contagem destes ciclos quando a Terra deixou de ser uma civilização baseada em combustíveis fósseis e passou a desbravar os confins da galáxia, em busca de energia solar, hidrogênio e diversas ligas metálicas, que tem crescido exponencialmente.

Fomos obrigados a investir substancialmente em tecnologia para viagens espaciais mais longas, em especial os motores FTL (faster than light), de  fusão de hidrogênio, mais popularmente conhecido como motor de dobra espacial e que nos propiciaram as viagens na velocidade da luz, ou bem próximo disso.

A busca desenfreada por cada vez volumes maiores de energia solar desencadearam a necessidade estratégica da construção de diversas Estações Feynman próximas a diversas estrelas. Falarei delas com calma mais adiante.

Adianto que são similares às Esferas de Dyson em sua estrutura, e simples em seu funcionamento.

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Esfera de Dyson (1959) – Art Extreme Tech

Além de nos permitirem captar instantaneamente milhões de toneladas de hidrogênio diariamente, no que transformamos em combustíveis, eletricidade, diretamente das fontes solares, podem ser consideradas como o advento revolucionário de nossa geração.

Você deve estar se perguntando como estas diversas civilizações estão se comportando nesta nova realidade, além do âmbito científico, nos aspectos político, social, econômico, ambiental… tendo em vista a realidade da Terra em um ponto longínquo de sua história. Ainda existem guerras, violência e corrupção, mas em escala tão ínfima que é abafada pelas leis que vigoram (de fato) em nossa união intergaláctica.

Parece mesmo é que as lendárias resoluções de Nikola Tesla em Sonho Lúcido¹ tiveram eficácia e transformaram as perspectivas de nossa sociedade.

Eu sou Kalki e lhe acompanharei nesta jornada, como narrador e conselheiro. Seja bem vindo ao… Conto de um Futuro Ideal, aperte seus cintos.

 

SUMÁRIO

 

Este conto será dividido em 10 capítulos, respectivamente:

 

  1. Intro (Caos)
  2. Memória Metálica?
  3. Estações Feynman
  4. Dominando a Gravidade
  5. Corrida pelo Hidrogênio
  6. Grande Prêmio de Canis Majoris
  7. Seres Elétricos
  8. Guerra Fotovoltaica
  9. Buracos Negros Explicados
  10. Vizinhos à Espreita

 

¹Conto anterior produzido por este blog e que guardará alguma relação com a história atual. Se você perdeu esta história, acesse aqui as partes 1, 2 e 3.

 

 

Sonho Lúcido (Parte 3 – Final)

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O tempo passara e compreendi qual era minha missão, era simplesmente ser um dos mensageiros desta boa nova. Noite após noite, durante quase dez anos, participei de assembleias durante o sono, onde diversas figuras conhecidas apresentavam suas ideias e planejamentos, que se efetivados transformariam todo sistema mundial, resultando em um mundo mais justo e igualitário. A tão sonhada meritocracia iria se projetar da dimensão moral para a material, trazendo novas perspectivas àqueles que buscam o progresso neste planeta.

Pude ver a articulação de um comitê que por si só seria capaz de retomar as lideranças em todos aspectos na Terra: educacional, ambiental, econômico, social e político. Em meados de 2017 um grupo de líderes morais e intelectuais arquiteta um planejamento de ações para que o desastre previsto para o século XXII não ocorra.

Este grupo estaria, até o final deste século, em vias de retornar ao nosso mundo, sob novas personalidades ainda mais preparadas, para o êxito do plano estruturado.

Entre eles está Nikola Tesla, denominado como o líder da ciência, tecnologia e sustentabilidade.

[…]

— Barulho suave e indescritível —

— Quem me perturba a esta hora da madrugada?

É o Nikola. E se você compreendesse o tempo como eu, não estaria a reclamar.

— Ops, me desculpe. É que você sempre me assusta com essa chegada cheia de efeitos especiais. Qual a pauta aventura de hoje?

Estou finalizando nossas diretrizes. Tenho que admitir, este grupo que articulado é bem crítico! Mas tem tudo para dar certo este plano, estão todos engajados.

Eu sempre faço breves incursões à outra dimensão no decorrer do sono, mas tudo que lembro quando acordo são flashs desconexos. Porque nesse mecanismo de emancipação as informações não são transcritas fielmente em meu cérebro consciente?

Essas porcarias que você ingere e esse álcool danificam suas sinapses, é como se seu cérebro fosse um simples walkie-talkie querendo receber imagens 4k, áudio digital e uma avalanche de dados complexos.

— De novo sugestionando o que devo ou não comer? Já não falamos sobre estas questões de influenciar meu livre-arbítrio que me tiram do sério?

Vou sempre alertar, no futuro irá me agradecer. Seja mais comedido. Independente da evolução atual do cérebro, você não seria capaz de captar lucidamente todo o volume de informações recebido. Já que permanecemos “fora do tempo”, é como se seu cérebro fosse um pen drive e as informações contatadas algo como… os bits que todos os servidores do Google.

— Estou pronto. (Enquanto nos comunicávamos via pensamento me desconectei usando uma técnica de meditação guiada).

Você está ficando rápido nisso! Falei que as repetições teriam resultados positivos…

— Além da prática, tenho visto várias técnicas de meditação no youtube! Além de ter visto a trilogia matrix, inception e estar acompanhando sense8.

Hum, tenho que admitir que leituras, videogames e essas séries ajudam mesmo a amplificar sua cognição, com mais material criativo para as horas necessárias.

Serei pouco apto em narrar de forma precisa o que veio a seguir, embora sonhadores lúcidos compreenderão algumas sensações: um torpor generalizado quase um coma, seguido de um salto na velocidade da luz rumo ao destino, um ponto capaz de nos imantar, uma dimensão ou frequência onde podemos nos manifestar livremente. Um cena que remeteria a Westworld mas não precisamos de um trem para chegar “lá”…

Era um anfiteatro. Sua arquitetura externa fazia jus ao estilo Niemeyer e os detalhes internos, com cores vibrantes e obras de grandes artistas que passaram pela Terra: Van Gogh, Rembrandt, Michelangelo, Da Vinci, Portinari, eram realmente muitos! Me aguçou a curiosidade a tela Tempestade no Mar da Galileia, de Rembrandt, que fazia jus às aguas turbulentas nas quais estes guerreiros ousariam navegar, no intuito de combater o sistema atual e transformá-lo.

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Tempestade no Mar da Galileia (1633)

De fato o local estava preparado para qualquer brainstorming, principalmente este decisivo, pela vida do planeta.

Era uma das reuniões do Conselho da Ciência, de um total de 10 conselhos que permaneciam em um trabalho árduo e contínuo, nos preparativos que antecederiam sua chegada e seus esforços pela evolução da humanidade. Cada conselho ainda se subdividia em vários comitês, no caso da ciência lideravam respectivamente: Charles Darwin (Evolução), Carl Sagan (Astronomia) e tantos outros nomes como Michael Faraday, Johannes Kepler, Marie Curie, Rosalind Franklin…

Eu assistia, atento e empolgado, ao workshop mais sonhado de um cientista. Claro, sem entender bulhufas das especificidades discutidas, mas tendo a certeza de esse planejamento iria modificar o mundo em todos aspectos de forma benéfica.

Foram discutidas melhorias no sistema educacional, que é a chave do progresso. Vi protótipos de novos veículos para transportes que “levitam” em uma malha de supercondutores, levando os usuários ao destino com rapidez, praticidade e principalmente, segurança extrema. Telas e mais telas com cálculos, estruturas novas de DNA que combateriam as doenças mais graves já na programação do nascimento de cada indivíduo.

Ao final de todas apresentações de tirar o fôlego, Tesla proferiu seu discurso de encerramento, entoando uma dose extra de incentivo a todos idealizadores deste projeto que mudará o destino da humanidade:

Prezados(as), nosso plano está em vias de se tornar realidade Cada um em seu papel, todos importantes para o contexto geral, serão capazes de transformar a condição infeliz que impera hoje na dimensão material. Os conselhos da Ciência, Moral e Justiça nortearão os demais e propiciarão uma nova esperança aos que neste planeta vivem. Enfim será eliminado o véu de ignorância, imposto pelos que insistem no equívoco do ego e do poder, e potencializaremos o número de seres conscientes de nossa responsabilidade, não só pela Terra, mas pelo progresso e manutenção do Universo.

Kalki

Nota do autor: Parece que alguns destes seres já se encontram em solo terreno, alimentando sua curiosidade pelo desconhecido. Com certeza Jack é um deles, e o Neil… o Neil dispensa comentários não é mesmo?

 

Moriarty?

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Continuação do conto Sherlock’s Kopf

Tratando-se da integridade física de Watson, não podíamos perder tempo e muito menos falhar. E tratando-se de um local tão distante que poderia muito bem ser uma armadilha… tive de engolir seco meu amor próprio e convocar um clã de especialistas.

Meu irmão Mycroft decolou de jato particular rumo ao Brain Institute na Nova Zelândia, à procura de um antídoto ou neurocirurgião capaz de interceder diante do quadro de meu estimado parceiro.

Mary e eu rumamos para a Alemanha, onde supostamente encontraríamos a empresa fabricante do dardo envenenado, e com sorte seu comprador misterioso.

Na UTI ficaria Molly e suas habilidades medicinais. Dei a ela alguns compostos fitoterápicos que formulei em meu laboratório domiciliar. Creio que assim ganhamos um pouco mais de tempo para resolver este imbróglio.

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Aterrissamos em Berlim, indo direto para a empresa de artigos de tiro ao alvo, ou pelo menos, o que sobrou dela. Prédio em chamas, nenhum ferido. Os funcionários evacuaram em tempo, um deles afirmou que todos os dados fiscais foram perdidos, além dos estoques.

Mycroft também não foi bem sucedido, o instituto previu uma análise que demoraria dias com o método neozelandês. Lestrade e a equipe forense davam o sangue para analisar a toxina em Londres.

Paralisado no centro de Berlim, a imagem fantasmagórica de Moriarty paira em todos telões. Aquela mesma risada cínica e prepotente de quem acha que está sempre um passo a frente…

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— O que foi Mr.Holmes… não consegue resolver este enigma? (risadas histéricas)

Espere aí, há uma voz por trás do anúncio… e eu conheço este timbre.

Em meio a todas estas atribulações, não saía de minha mente aquele escândalo ocorrido com o rei boêmio. Fui enganado por uma ardilosa mestre do crime, que se fantasiou de homem e fugiu com aquela fotografia. Irene Adler… como ela pode cair nas garras deste cretino!?

— Raptei sua amada Irene e tenho o antídoto… mas onde estou? Terá de escolher entre ela e seu parceiro Watson. Pense… tic-tac, tic-tac, o seu tempo está se esgotando!

(mais risadas)

Tic-tac, tic-tac, pense Sherlock. Eu e meu monólogo interno.

—Ele só nos fez perder tempo, Mary. Ele nunca saiu de Londres. Aposto minhas fichas que ele está no Palácio de Westminster, mais precisamente atrás do Big Ben… e me aguarda chegar sozinho, ou o pior pode acontecer. Avise Lestrade, preciso correr!

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Lestrade e toda polícia londrina sitiaram o Palácio de Westminster. Tive de escalar o Big Ben, pois haviam minas nas escadarias impedindo a passagem. Quando cheguei na parte traseira do sino, a surpresa: Irene e a caixa com o antídoto habilmente suspensos por dois ponteiros… o que quer que fosse retirado, derrubaria o outro por quase cinquenta metros de altura.

A assombração por fim aparece, na face sul do Big Ben, alardeando:

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— Hey… há quanto tempo!

— Parece bem difícil essa decisão hein Holmes? Vindo de um “morto”, até que arquitetei bem esta charada, não acha?

(…) Nem pense em chamar Lestrade ou qualquer policial que estiver lá embaixo… eu ativo as minas e vamos todos pelos ares! ha ha ha… a escolha se aproxima… (seria legal morrer vendo essa sua cara desesperada frente ao meu plano final!)

Rapidamente pensei em uma forma de salvar os dois. O movimento deveria ser preciso. Irene interrompeu meus pensamentos:

—Não faça isso Sherlock! Salve Watson, eu estive foragida por todos estes anos, mereço este castigo! Não perca a chance de salvar seu amigo por minha causa.

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Lancei minha corda ao ponteiro de Irene, de forma sincronizada deveríamos balançar o corpo em um ângulo de 37 graus, pelos meus cálculos… com sorte os ponteiros fariam um efeito de pêndulo e teríamos uma chance de pegar o medicamento antes dele cair.

Na mosca! Mas não havia o que comemorar, Irene estava desfalecendo…acabava de ter sido infectada com a mesma toxina.

— Fantástica sua jogada! Mas pensou mesmo que eu não me precaveria? O antídoto é uma dose única que salvaria um dos dois… e não haverá laboratório no mundo que o replicará em tempo hábil. A propósito, acho que vou apertar este botão agora!

Duas explosões seguidas estremeceram a torre. As chamas subiam vorazmente as escadarias e os pilares de sustentação.

—Não se arrisque por nada, sou um peso morto e a corda só suportará um, você sabe disso, pule agora!

Descemos rapidamente pela face leste que ainda estava intacta, jamais soltaria Irene. Mas corda estava se desintegrando… presa por poucos fios. De súbito, Irene fez um último esforço se soltando de meus braços… não pude contê-la…

Irene…não!!!

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Seu rosto esguio foi minha última memória.

Cheguei ao chão com ferimentos leves, Lestrade correu para levar a medicação ao Watson. Nos destroços do Big Ben, não foi encontrado o corpo de Moriarty.

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— Juro por você Irene, que vou encontrá-lo e vingar sua morte. Perdoe-me pela minha falha…

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Nota: Salienta-se que o texto não possui fins comerciais, e se assegura do domínio público concedido em território nacional para criação e adaptação de novos contos envolvendo o personagem Sherlock Holmes.

Sherlock’s Kopf

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Ao longe noto passos céleres e pesados, uma inquietude ao bater a porta de forma displicente. Ao me cumprimentar, ela estava ofegante e aturdida, e sua voz emitida com extrema dificuldade. Não precisava ser um mentalista, essa mudança abrupta e peculiar de sua linguagem corporal me ativou um processo sistêmico de especulações nos mais variados cenários, angustiando-me na espera da fatídica notícia.

— Watson está em coma. Disse Mary com olhar lúgubre.

O adeus é uma metáfora, fruto do tempo que criamos artificialmente. Mas eu não estava pronto para perdê-lo. Já estava acostumado com sua chegada pontual em meu apartamento na Baker Street 221b, vulgarmente conhecido como nosso escritório e laboratório de pesquisa. A parceria de Watson é das mais leais, mesmo em minha frieza característica, sou capaz de admitir isto, apesar de suas gafes corriqueiras.

— Prepare minha boina e minha capa, o trabalho me chama mais uma vez.

Eis que cheguei apressado à cena do crime. Em uma primeira observação em meio aos peritos forenses, foi encontrado um dardo com resquícios de uma substância desconhecida.

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Precisariam de 48 horas para analisarem o material, mas talvez Watson não tenha este tempo. O dardo acertou sua perna e aos poucos está degenerando seu sistema nervoso.

Com certeza há um dedo de Moriarty nisto, ele quer me desafiar novamente e atingiu meu ponto mais fraco. Preciso me concentrar nas pistas para encontrá-lo, apesar de meu desempenho analítico estar nitidamente comprometido.

dardo

— Leu um dos peritos, em alto relevo sobre o dardo.

Meu alemão estava enferrujado, mas a frase dizia algo como: “Ao atingir seu coração, despedacei a sua mente.” Muito genérico, e além do mais dizem por aí que não tenho coração. Quando se trata do maquiavelismo de Moriarty, cada detalhe não pode passar despercebido. As letras N,Z,S,K estavam em maiúsculas propositalmente.

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Em meu arcabouço mental as possibilidades de palavras saltavam em uma velocidade incalculável…vejamos: New Zealand, Seek.

Uma mensagem em alemão… pedindo para eu ir para a Oceania? Coração, mente…ah! Há o conhecido Brain Research Institute por lá, talvez os especialistas possuam algum antídoto. Preciso me arriscar, e correr contra o tempo.

Backpacker

[Continua…]

Nota: Salienta-se que o texto não possui fins comerciais, e se assegura do domínio público concedido em território nacional para criação e adaptação de novos contos envolvendo o personagem Sherlock Holmes.

 

 

Sonho Lúcido (Parte 2)

A monochrome rainbow in a red sky

Acompanhei aquele ser robótico simpático. Adentramos a um circuito de esteiras horizontais que rapidamente nos levava ao destino. Nem imaginava o que ou quem encontraria, mas diante de tanta tecnologia avançada e aquele ambiente que falava por si só, concluí que tudo aquilo deveria ser uma engenharia complexa mantida por seres muito superiores a nós. E, de fato eu não estava errado…as surpresas não parariam por ali.

Aportamos após o célere transporte em um gigantesco salão oval, com colunas que intimidariam até a Biblioteca de Alexandria.

Em um púlpito me aguardava o anfitrião, aos poucos pude ver seu semblante. Quem pensa em um ser alienígena já imagina aquelas criaturas horrendas de Falling Skies, mas não era o caso.

     – Estava esperando por você, meu caro. Disse, sereno.

Um ser de aspecto humano, mas muito mais sutil e refinado. Uma centelha energética pulsava sobre suas vestes, como que controlando todo aquele ambiente ao redor. Aos poucos o salão começou a se transformar, tomando a aparência de um pub inglês, daqueles que costumo frequentar. E ao fundo, fui ouvindo os acordes iniciais de uma de minhas músicas favoritas… Stairway to Heaven…que recepção! Pensei.

     – Espero que não se assuste, lhe agrada esta música e este local? Encontrei nos seus pensamentos, que são como um livro aberto para mim. Sinta-se à vontade para conversarmos. Sorriu levemente.

Eu estava ao mesmo tempo extasiado e paralisado com toda aquela “mágica” e curioso para compreender seus mecanismos. Mas não tive tempo de arriscar uma pergunta, pois ele mudou o rumo do assunto para um tom mais sério:

     – Agora que está ambientado, vou ir direto ao ponto Julliano. Lhe trouxemos para cá através de seu sono, assim que as circunstâncias se tornaram possíveis. Não será a primeira nem a última vez. Temos observado seu planeta há milênios, não como um entretenimento vazio…nosso intuito é vê-los crescendo espiritualmente, até alcançarem o próximo nível.

     – Próximo nível? Sussurrei.

     – Sim, mochileiro. Tudo se encadeia no universo, quanto mais avançamos em intelecto e moral atingimos novos patamares de espiritualidade, e respectivamente, novas realidades se abrem para nosso progresso contínuo.

     – Gênios que passaram pela Terra: Sócrates, Platão, Einstein, Tesla…tantos outros que deixaram seus exemplos… agora estão por aqui, em novo ritmo de aprendizado.

Eu continuava atento e perplexo com tanta nova informação.

     – Você não se emocionou com a sinfonia de Mozart ao se aproximar do nosso orbe? Sim, ele está aqui. E através de seus pensamentos ele controla a natureza que, em conjunto, vibra e emana as melodias mais belas.

     – E Jesus? Não consegui resistir à pergunta.

     – Seria muito para sua mente assimilar agora. Vamos voltar ao tema-chave de nossa conversa. A Terra é um dos muito projetos dessa galáxia, uma escala…ou estágio, previsto para abrigar em harmonia pelo menos 50 bilhões de seres até o que vocês consideram como ano 3000…

     – E então, está tudo se encaminhando? Argui, receoso da resposta.

     – Não é bem assim. Não há um destino programado, há um planejamento dos engenheiros intergaláticos. Mas o livre-arbítrio, as escolhas de cada um em suas posições, interferem e moldam consequências, muitas delas difíceis de serem sanadas. O ser humano ainda é apegado às paixões da matéria, em sua maioria superficiais, ideologias controversas no campo da religião, política e até ciência! Vocês se perdem em futilidades, e não cuidam direito do próprio ambiente… e nesse ínterim chego ao cerne da questão…

     – As mudanças climáticas? Deduzi.

     – Exato. Acionamos nosso simulador hiperdimensional tempo vs espaço, e o prognóstico não foi animador. Saltamos para um cenário do ano de 2148 e encontramos a superfície do planeta estéril, morta como a de Marte (nossa tentativa de projeto anterior). Sobraram só rios ácidos e uma superfície radioativa, em níveis que impedem a manutenção de vida inteligente em seu estágio.

     – Outra guerra mundial??? Bati na testa, inconformado.

     – Infelizmente…e mais do que isso, se vocês persistirem com este padrão atual de produção e consumo… e essa linha de pensamentos egocêntricos…

      – Há um ponto positivo a ressaltar, desta probabilidade simulada. Encontramos um satélite chinês próximo a um cinturão de asteroides, já sem funcionamento e desgastado pelos impactos. Mas havia um disco encriptado, e seu conteúdo era uma foto da Terra tirada da antiga estação espacial, datada de 2135, com a seguinte mensagem de autoria desconhecida:

ate-17-02
Pintura em tela de Túlio Dias

Não faltaram alertas e previsões

A mudança climática  era iminente

Mas a ganância  não tinha medida

Impactados antropicamente

Carregaremos a culpa…

Imediatismo que abriu uma ferida

Pelas próximas gerações

 

Nos restou um rio acidificado

Oxigênio…nem mesmo um traço

Até mesmo as espécies mais resistentes

Desvaneceram no solo árido degradado

Impávidos  e resilientes

Conquistamos o espaço

 

Estamos a mercê de  nossa sorte,

Pois o mérito não acompanhou nossa convivência.

Em nossa próxima morada, seguiremos este norte:

Valorizar como prioridade a ciência

E acima de tudo, cultivar valores morais

Igualdade, liberdade e fraternidade…

     – Eles resistiriam?

    – Estamos convictos de que não haveria essa possibilidade, mas seria um avanço, sem dúvida! Para sua estrutura biológica atual, o planeta habitável mais próximo está à 7 anos-luz e sua tecnologia atual não suportaria uma viagem tão longa. Vocês sequer desenvolveram os propulsores FTL que persistimos em intuir para suas histórias sci-fi…

 A esta altura perguntas fervilhavam em minha mente…e eu não sabia quanto tempo teria antes de acordar. Tentei avançar para uma possível conclusão:

     – E o que eu, um humano comum, fora de qualquer posição de autoridade neste mundo, poderia fazer para evitar esta catástrofe?

[Continua…]

Kalki

Quem sou eu?

 

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3…2…1…

Solucione esta equação misteriosa:
o veículo seguiu celeremente para Wembley
com sorte chegaríamos em tempo para avaliar os vestígios.

Houve um crime premeditado. Despertara minha arguta astúcia, a propósito.

Era uma tela de Rembrandt, avaliada em 20 milhões de libras, notificaram-me.

Retrato de um homem, 1652. Como podem valorizar tanto uma pintura? Já fiz coisa melhor em meu hall de experimentação. Pensei: eram profissionais…talvez os irmãos holandeses que insistem em nos provocar com suas táticas previsíveis. Isso está ficando interessante…prossegui observando a cena em meio ao meu estratagema lúdico.

Lânguido por não encontrar uma pista coerente, enfim deduzi coordenadas habilmente refletidas em uma marca d’água, inserida em um rodapé próximo ao local da obra furtada.

Outra viagem nos esperava, rumo à Sheffield.

Cavei por quase três metros no ponto indicado…era a busca incessante pelo pote de ouro no fim do arco-íris, concluíra. Tudo faria sentido à partir da informação que encontrasse, estava gostando daquele jogo.

Kant foi o único nome encontrado, em seu livro empoeirado: O único argumento possível para uma demonstração da existência de Deus, 1763.

Havia algum detalhe a escapar de minha análise robusta e concisa…

Outrora eu via as resoluções em telas projetadas de meus pensamentos. Ou números. É isso! Números… Rembrandt 1652… Kant 1763… sussurrei: esperem. Trata-se de um código. R1652-K1763… é a numeração do carro da rainha! Estão planejando um crime de proporções imensuráveis!

Logo presumi, o roubo e as pistas foram só fachada para nos entreter, pois o verdadeiro crime está para acontecer!

Minha dedução lógica nunca falha, chamem a guarda imperial!

Enfim seremos reconhecidos em nível nacional, quiçá mundial, disse meu parceiro. Retornemos À capital, temos mais casos pendentes, rebati. Talvez uma stout para comemorar? Insistiu.

Somente uma, então… quero estar sóbrio e lúcido. O pior pode estar por vir e deveremos nos manter preparados…

Backpacker

 

Obs: Descobriu quem sou eu?Minha identidade pode ser vista no próprio texto, reunindo as letras maiúsculas que encabeçam cada parágrafo. Deixei-as em negrito para facilitar ainda mais… xD

 

nota

 

Espero que tenha gostado deste enredo. É minha breve homenagem à Sir Arthur Conan Doyle e ao encerramento de uma de minhas séries favoritas, inspiradas na obra dele.